Trupe maranhense expõe histórias de homem brincante de bumba meu boi

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Vem de São Luís, capital do Maranhão, o espetáculo que será apresentado nesta sexta-feira (4) no 6º Fentepira. Trata-se do solo teatral O Miolo da História, concebido pela Santa Ignorância Cia. de Artes. Com entrada gratuita, a encenação acontece às 20h no Teatro Municipal Dr. Losso Netto.

Embora seja um solo, a peça não é um monólogo. No palco, Lauande Aires interpreta cinco personagens: João Miolo, Nego Chico, Cazumba, Amo de Boi e Curandeiro. Ele explica que essa é uma montagem que prioriza, entre outras linguagens cênicas, a fotografia, construída com criatividade, racionalidade e labor, encenada primeiramente no palco italiano.

No enredo, a vida e os sonhos de João Miolo movem a trama. Operário da construção civil e brincante de bumba meu boi, ele tem uma vida comum a tantos outros operários: casa humilde, vida sofrida e uma enorme solidão. Mas em meio a tudo isso, João sustenta o desejo de ainda vir ser cantador no boi onde brinca e ocupar uma posição de destaque na vida.

O drama de João começa quando, não sendo aceito como cantador, decide não sair na boiada daquele ano. Revoltado, ele vai trabalhar embriagado e acaba machucando-se, precisando refazer os votos com o santo para não perder a perna. O espetáculo apresenta o homem em conflito com a fé e suas relações sociais.

O Miolo da Estória é uma obra de ficção baseada em leitura, observação e depoimentos de brincantes, que traz em síntese os conflitos de um homem pobre diante da exploração sofrida no ambiente de trabalho e no espaço do divertimento.

A dramaturgia do espetáculo foi elaborada com base em referencial teórico de importantes pesquisadores da cultura popular, na observação e depoimento de brincantes, em especial, o brincante que manipula o boi, ou seja, o miolo do boi.

Foi estruturada de acordo com o roteiro principal do auto do bumba meu boi formado por Guarnicê (preparação dos brincantes); Lá vai (aviso ao dono da casa de que o boi vai brincar); Licença (toada de permissão); Urrou (sacrifício e ressurreição do boi); despedida (fim da apresentação).

As cenas acontecem dentro, e em volta, de um espaço circular com quatro metros de diâmetro, em referência a própria circularidade do auto e do terreiro de apresentações. Os objetos comuns ao boi e à obra são resignificados, adquirindo uma outra dimensão simbólica. Neste aspecto, a casa de João Miolo é representada por uma escada em formato cavalete medindo 2,20 metros, onde também são colocados uma pá, uma enxada, um tamborito e três capacetes.

Em outra cena, a mesma escada é transformada em uma bicicleta através da manipulação de uma pá e duas peneiras de areia. Na cena final é transformada na escadaria da igreja de São Pedro para o pagamento da promessa. Seguindo a mesma referência, seis latas de tintas funcionam como sofá, cama e parede da obra. Capacetes são utilizados em sua função natural e transformados em adereços dos baiantes.

A colher de pedreiro, símbolo da própria força de trabalho, funciona também como maracá (instrumento de percussão do mandante do cordão) e como colher de sopa. Uma lanterna é uma vela, uma enxada é um cajado de uma entidade, e um carro de mão é ao mesmo tempo altar e boi.

A música da cena, composta especialmente, funciona como um personagem narrador na forma de toadas e como efeitos construídos a partir de células e instrumentos percussivos. O figurino remete ao homem-operário no espaço de trabalho, porém influenciado ao estilo de indumentária do boi, a exemplo da calça que é uma reprodução da veste do Rajado, as jaquetas embasadas na veste do Chico e a capa de chuva que serve como veste do Cazumba. O uso de bordados de canutilhos em miçangas aplicados à máscara de soldador e capacetes, re-significam personagens como Cazumba e Amo.

A ideia inicial da montagem aconteceu em 29 de junho de 2009, enquanto os atores da Santa Ignorância Cia. de Artes participavam da tradicional boiada no largo de São Pedro, onde dezenas de grupos de bumba meu boi brincavam em homenagem ao santo. Em meio à multidão que dançava, batucava, rezava e bebia, os atores presenciaram a chegada de um novo boi, sotaque da baixada, e uma cena impressionante: o miolo do boi subia lentamente de joelhos os 47 degraus da igreja com seu boizinho nas costas num choro incontrolável, até chegar aos pés do santo no interior da igreja. Desde então, o grupo começou a questionar: quem é esse anônimo que faz o boi? Qual sua estória, seu sonho, sua vida? Que dívida com o santo ele esteve a pagar naquela boiada?

O espetáculo O Miolo da Estória teve sua estreia em 2010 e desde então percorreu a 5ª Mostra Sesc Guajajaras de Artes, em São Luis, o 1º Festival de Teatro de Açailândia, no Maranhão,a 6ª Mostra Sesc Povos da Floresta, no Macapá (Amazonas), a 6ª Semana de Teatro no Maranhão, o 28º Festival de Monólogos Ana Maria Rêgo, em Teresina (Piauí) e a Mostra Amazônia das Artes.

A companhia – A Santa Ignorância Cia. de Artes é uma entidade de produção artística que surge no cenário cultural em 1997. A cia. subdivide-se em duas frentes de pesquisa sendo, direcionada para a o desenvolvimento das capacidades técnicas do ator/dançarino e a montagem de espetáculos adultos e infantis, e outra, para a pesquisa do movimento e dança contemporânea. Suas principais características são os processos de direção colaborativa, montagens com diretores convidados e criação de espetáculos solos, resultados dos processos individuais que se desenvolvem a partir do trabalho coletivo. Hoje a Santa Ignorância, é formada pelos artistas Adeílson Santos, César Boaes e Lauande Aires.

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