O Festival Nacional de Teatro de Piracicaba Fentepira e a força do teatro no interior paulista

Por Alexandre Mate, doutor em história social, professor da Unesp em São Paulo e debatedor do Fentepira desde a 5ª edição

Paschoal Carlos Magno - Foto: www.funart.gov.br
Paschoal Carlos Magno – Foto: http://www.funart.gov.br

O primeiro festival nacional de teatro, de modo mais abrangente, surge no Brasil por intermédio de Paschoal Carlos Magno (foto), um grande pioneiro e incentivador da atividade teatral entre os amadores e estudantes. Como homem ligado à diplomacia, Paschoal “descobre” os festivais shakespearianos em Londres e apaixona-se. Bastante comovido e tocado com a ideia, e de volta ao Rio de Janeiro, Paschoal tudo faz para incentivar jovens estudantes a dedicarem-se à linguagem teatral, na condição de amadores. Sem vislumbrar tanto o estrelato, Paschoal defendia a importância no processo de formação do sujeito. Assim, Paschoal, um carioca da gema, nascido e criado no antigo Estado da Guanabara (hoje cidade do Rio de Janeiro), em 1938, funda o grupo Teatro do Estudante do Brasil, e, em 1950, ampliando seu pioneirismo, cria o Festival Nacional de Estudante do Brasil. O festival foi apresentado em algumas capitais brasileiras e revelou muita gente talentosa.

Na cidade e no Estado de São Paulo importantes festivais de teatro já foram e continuam a ser desenvolvidos. Dentre os mais festivais nacionais (tanto os mais antigos quanto os mais recentes), podem ser destacados os de: Festival Nacional de Americana (cuja última edição ocorreu em 2011); Fenteep (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente); Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba); Festivale (Festival Nacional de Teatro do Vale do Ribeira), em São José dos Campos; Festa (Festival Santista de Teatro Amador), em Santos; Feste (Festival de Teatro de Pindamonhangaba); Festival Nacional de Limeira; FIT (Festival Internacional de Teatro), de São José do Rio Preto; Festival Nacional de Teatro de Ribeirão Preto; Festival Teatro do Kaos, de Cubatão; Mirada (Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos), bianual; Mostra de Teatro de Rua de Guarulhos; Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, da cidade de São Paulo; Mostra Internacional de Teatro de São Paulo; Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo de São Paulo (evento coordenado pela Cooperativa Paulista de Teatro); e Tropé (Festival de Teatro de Itapira).

Ao longo de minha carreira, fui convidado a participar da maioria dos festivais acima destacados, como debatedor, mediador de debates ou crítico teatral. Muito assistido e infindas parcerias carregadas para a vida como um todo. O último dos festivais que participei foi o Fentepira.

Piracicaba, do Tupi Guarani, significa “lugar onde o peixe para” ou “lugar onde os peixes se juntam”. O rio Piracicaba corta grande parte da linda cidade paulista. A cidade começou a ser edificada, exatamente, onde há no rio um conjunto de pedras, que, em tempos sem estiagem, apresenta uma imensa “colcha de espuma”. Exatamente neste ponto cardumes de piracemas tentam a subida para a desova. Então, é este fenômeno da natureza, que ocorre todos os anos, que batizou a cidade.

Em sua 9ª edição, o Fentepira apresentou 11 espetáculos na mostra competitiva e outros 19 na chamada Mostra Estudantil. Com curadoria de Roberto Rosa, na mostra oficial participaram espetáculos de rua: de Campinas, Presidente Prudente, São José dos Campos, Santo André; de espetáculos apresentados em palcos: três da cidade de São Paulo, e um de Jacareí, Piracicaba, Rio de Janeiro (RJ) e São Luís (MA).

Como características a serem destacadas, os espetáculos de rua todos têm tratamento popular e concentraram grande número de espectadores, sendo que dois desses espetáculos se apresentaram às 11h, em dois sábados; os outros dois, com tratamento mais adulto, foram apresentados em lindíssimo espaço cultural, de antigo engenho de cana de açúcar, chamado Engenho Central.

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Abertura da programação na praça José Bonifácio

O curador, Roberto Rosa, tem circulado muito pelo interior paulista e possui grande conhecimento sobre as práticas e grupos espalhados pelo Estado. Além disso, Rosa coordena, com Edson Caeiro, o projeto Teatro nos Parques, que circula em outras cidades fora do Estado. Foram 346 projetos inscritos para participar do Fentepira. O número, realmente, é significativo e, mesmo sem eixo temático definido, e, como já mencionado, quatro espetáculos foram de rua, mas nenhum deles propriamente infantil. O Barracão Teatro de Campinas, apresentou o espetáculo “O Ponto Alto da Festa”, dirigido por Tiche Vianna; a Cia. de 2, de São José dos Campos, apresentou “A Nau dos Desterrados”, cujo tema foi a ocupação, por alguns dias, da cidade do Rio de Janeiro em 1711, por piratas franceses; a Cia. Lona de Retalhos, de Santo André, apresentou “Otelo e a Loira de Veneza ou o Pancadão da Traição”, que adaptou o clássico de Shakespeare “Otelo”, fazendo o chamado mouro de Veneza, como era chamado Otelo, ser apresentado por mascates, tendo como paisagem os morros do Rio de Janeiro; o Circo Teatro Rosa dos Ventos apresentou o hilariante “Saltimbembe Mambembancos”, constituído por números circenses diversos.

Rosa selecionou um espetáculo infantil de São Paulo, “Ana na Árvore”, apresentado pela Ana Núcleo Artístico. Os espetáculos adultos, também sem eixo temático distinto, foram: “Fábrica de Chocolate”, de Mário Prata, apresentado por Frederico e Osório Produções Culturais, do Rio de Janeiro. O texto se caracteriza como um drama épico que apresenta alguns expedientes utilizados por civis, em processos de tortura, durante a ditadura civil-militar brasileira. Trata-se de obra fundamental, sobretudo, para tantos inocentes úteis que têm, mesmo sem saber o significado, defendido a volta do militarismo e da ditatura. “Velhos Caem do Céu como Canivetes”, da Pequena Companhia de Teatro (de São Luís – MA), apresenta espetáculo bastante experimental a partir de adaptação de conto do colombiano Gabriel García Márquez. “Monóculo”, do Grupo Tecelagem, de Jacareí, apresenta espetáculo com uso de máscara, que cobre apenas rosto. O assunto da obra, em tese um drama, mas cujo tratamento faz o gênero desviar-se enquanto identificação com as personagens, transita a partir de relação desgastada de um casal. “Maria, Sou Eu”, é um drama épico (basicamente misturando ação e narração). Trata-se de um monólogo apresentado pelo Grupo Por Volta de Logo Depois, de Piracicaba, apresenta figura alegórica (Maria), que foi torturada nos porões da ditadura civil-militar brasileira. “Maria Inês ou o que você Mata pra Sobreviver?” é um drama épico-dialético, em que os integrantes do grupo apresentam todas as personagens da obra, indistintamente sendo personagens femininas ou masculinas. A obra, produzida, dirigida e apresentada por jovens estudantes do curso de Artes Cênicas da USP, apresenta as ações de uma mulher que, quando atacada, mata para defender-se. “Epitáfio”, também de São Paulo, da Cia. EmVersão, de modo semelhante à “Maria Inês ou o que você Mata pra Sobreviver?”, é obra produzida, dirigida, escrita por jovens atores e atrizes.

Atualmente, os festivais de teatro no Brasil transformaram-se em mostras. Tal característica é muito interessante em razão de o antigo comportamento (perverso) de premiar os melhores se perdeu (ainda que o nome continue como festival). Desse modo, pelo caráter de mostra de teatro, o evento pode criar e propor laços mais afetivos e efetivos entre os artistas que se apresentam e aqueles da cidade. Além disso, vem sendo característico, também, de alguns eventos dessa natureza apostarem nos processos de formação, apresentando tanto palestras, cursos, oficinas quanto buscarem modos para que os espetáculos apresentados possam ter leituras críticas, que passam a ser publicadas em diversas fontes.

No Fentepira, cujo número aproximado de espectadores se aproxima dos 10.000, após cada espetáculo apresentado, e a tradição tem ocorrido desse modo, o processo de formação compreende: um debate entre os artistas, o público e os debatedores.

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Debate na praça José Bonifácio após o espetáculo O Ponto Alto da Festa

Em 2014 os debatedores foram a queridíssima e competente pesquisadora carioca Fátima Saadi e Alexandre Mate. Este último, além de participar dos debates, e nos últimos três anos, tem apresentado leituras críticas das obras da mostra oficial.

As leituras críticas saem publicadas no Jornal de Piracicaba (jornaldepiracicaba.com) e no blog do Festival.

As críticas são: “Saltimbembe mambembancos”: a alegria como prova dos nove… truco doze, ladrão! “Otelo e a Loira de Veneza ou o Pancadão da Traição”, uma bela mascatização de um clássico. “Epitáfio”, um labirinto de vidas entrel(i)açadas. “Maria Inês ou o que Você Mata para Sobreviver”, um experimento histórico-estético-social surpreendente. “A Nau dos Desterrados”, de 1711 (ano em que piratas invadiram e tomaram o Rio de Janeiro) a 2014, uma deliciosa viagem cômica. “Maria Sou Eu”, na alegoria do título o reavivamento da memória e o chamamento por justiça (‘quae sera tamen!’). “Monóculo”, espetáculo sem palavras engravidado de grande poesia. “Ana na Árvore”, espetáculo que precisa de total remodelação.  “Velhos Caem do Céu como Canivetes”, espetáculo de excessos e de difícil assimilação. “O Ponto Alto da Festa”, espetáculo ainda em processo. “Fábrica de Chocolate”, uma dolorosa memória de tempos perversos.

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Espetáculo do Rosa dos Ventos encerrou a programação

Para quem tiver interesse e quiser acompanhar as críticas, para, em havendo oportunidade seguir os espetáculos, basta acessar a uma das duas fontes aqui apontadas.

Mais que isso, é absolutamente encantador poder ver tantos jovens assistindo aos espetáculos e participando dos debates. Independentemente de qualquer coisa, e prioritariamente a função do teatro não é filantrópica ou de ajuste social, sabemos que os jovens que participam de eventos culturais, em um mundo tão fugidio de nós mesmos, está aproveitando de modo muito significativo seu tempo.

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