Da arte do híbrido

Por Jorge Vermelho e Valdir Rivaben*

Um festival de teatro é um território propício ao risco. Quando não se propõe a isto, é morto.

A atual produção da cena teatral contemporânea aponta uma diversidade de caminhos e investimentos estéticos que fica difícil apresentar um recorte possível capaz de contemplar toda essa gama de desejos criativos e inquietudes delirantes que só a arte permite.

É preciso sair do lugar comum, da zona de conforto e atirar-se à arena com a disponibilidade e generosidade de quem sempre busca oferecer à plateia o que há de melhor em si, mesmo que esse “melhor” seja torto e avesso.

As escolhas da curadoria foram pautadas pela diversidade de propostas artísticas, onde o pensar e o fazer fossem indissociáveis dos espetáculos inscritos nesta 10ª edição do Fentepira, tendo como parâmetro grupos/coletivos consolidados em suas respectivas pesquisas.

Antes de mais nada, debruçamo-nos nas nossas inquietações como artistas e buscamos identificar espetáculos que traduzissem a excelência do ofício teatral. Com esta base “combinada”, o nosso olhar buscou absorver trabalhos que apresentem novos respiros à cena teatral, onde em sua essência exalem a pesquisa, a definição de um caminho artístico e uma prática que nos provocasse como espectadores. Além, é claro, de buscar a qualidade das propostas pensando no público que “habitará’” as cadeiras do teatro e será a recepção concreta da obra teatral ali posta.

Hoje, diante da diversidade de propostas de encenações e, consequentemente, da evolução da dramaturgia com as inovações trazidas pela estética pós-dramática, da arte performática, da compreensão do papel do ator como agente autônomo em sua criação, onde ainda convivem, no nosso panorama teatral, os dramaturgos clássicos, é salutar afirmar a preponderância, na programação deste ano, de um caráter híbrido nas propostas, que vão desde as dramaturgias contemporâneas, tais como o contundente texto de “Abnegação”, de Alexandre Dal Farra, que rendeu ao autor a indicação ao Prêmio APCA de Melhor Texto, passando pela ousadia cênica pós-moderna de “Misanthrofreak”, do grupo Desvio, entremeado por uma dramaturgia ‘cômica híbrida’ que valoriza o trabalho dos intérpretes em “As Estrelas são para Sempre?”, do grupo Katharsis, sob a batuta do experiente homem de teatro, Roberto Gill Camargo, e também o solo de Eduardo Mossri em “Cartas Libanesas”, belíssimo texto de José Eduardo Vendramini (indicado ao Prêmio Shell como melhor autor deste ano). Outro ponto a ressaltar, nesta curadoria, foi buscar no ofício do ator e no seu coletivo, a sua razão de ser, onde o intérprete compartilhasse a sua experiência com o espectador, independente das diferentes estéticas, mas onde o artesanal deste ofício pudesse ser compreendido, ainda que por momentos efêmeros, como é o teatro.

Dos espetáculos para crianças, vale ressaltar a pesquisa proposta por cada encenação e por artistas que colocam o teatro para os pequenos em pé de igualdade com o teatro para adultos, sem concessões. É o caso da Cia. Téspis de Teatro, com uma adaptação de um clássico revisitado “Um, Dois, Três: Alice!”, e do mágico teatro de bonecos da Companhia Catibrum, com “O Som das Cores”.

A rua, como espaço de encontro, tem também “Concerto da Lona Preta”, uma incrível elaboração de partitura corporal e musical que cumpre com competência e eficácia a difícil tarefa de realização de espetáculo no burburinho agitado da inquieta metrópole.

De Piracicaba, grupos que comprovam a presença da elaboração da pesquisa, e que apresentam uma maturidade a caminho do profissionalismo definindo suas personalidades e projeto artístico. É o caso da Cia D’Vergente de Teatro, com uma proposta acertada na linguagem da commedia dell’arte com “Muda por Amor”; com propostas embasadas no contexto da cidade, já “Lodo”, da Cia Te-Ato de Teatro, e “Degredo”, do Grupo Forfé de Teatro, são espetáculos instigantes, cuja dramaturgia foi construída a partir dos motes da própria cidade em que vivem, seja como denúncia social ou como um “proibido” caso de amor ocorrido nos tempos passados.

Nesta 10ª edição do Fentepira, a curadoria assume também um outro papel: o de fomentar uma recorte de ações que coloquem o festival em diálogo direto com a cidade e com a classe artística local, apontando caminhos que possam gerar outras perspectivas de encontros e discussões acerca do que fazemos, porque fazemos e pra quem fazemos.

Como dissemos acima, um festival é um território inquieto e, para tanto, desejamos que os espectadores desta edição saiam de suas confortáveis poltronas e inquietem-se diante da possibilidade do novo.

*Jorge Vermelho e Valdir Rivaben são curadores do 10º Fentepira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s