Trupe piracicabana reflete sobre trabalho escravo em espetáculo no 10º Fentepira

Espetáculo-Lodo-2---foto-Guilherme-Scarassati

A relação opressor versus oprimido é o mote de Lodo, espetáculo que trata do trabalho análogo ao escravo e das condições sub-humanas. Interpretado pelos atores João Scarpa e Ricardo Araújo, da Cia Te-Ato de Teatro, o enredo se desenvolve no fundo de um poço, ambiente hostil e inóspito que serve como local de lembranças e reflexões. A apresentação acontece na segunda-feira, 9, no Armazém 14 do Engenho Central (em frente à Passarela Pênsil), às 20h, como parte do 10º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba). A entrada é gratuita e a capacidade é de 150 pessoas.

A trama começa quando Neguito, operário da construção civil, despenca dentro de um poço da obra inacabada de um shopping center. Ele encontra Zenildo, que afirma sempre ter habitado aquele lugar e não se lembrar de como chegou lá. Nesse poço não existem lembranças, nem tempo, nem nada que os faça manter contato com a realidade. Não há fome, sede ou qualquer outra necessidade, apenas a vontade de sair.

Da relação inusitada entre dois desconhecidos, o público conhece suas histórias, expectativas, frustrações, condições e aspirações. O tempo corre, a lama escorre e a cabeça dói quando as lembranças teimam vir à tona. Enquanto Neguito busca alternativas para sair do poço, Zenildo tenta lhe abrir os olhos para a realidade fora daquele espaço. Eles estabelecem, então, uma relação de opressor e oprimido, tornando-se escravos um do outro. Mas, a questão é: onde é a saída?

O espetáculo possibilitou o encontro, no mesmo palco, de dois amigos de longa data. Scarpa e Araújo dividem há vários anos a direção da Ceta (Companhia Estável de Teatro Amador de Piracicaba). Em sua trajetória como ator, Scarpa é conhecido por papéis cómicos, entre eles no tradicional espetáculo As Três Marias em Busca do Ponto G, da própria Cia Te-Ato. Para Araújo, Lodo foi a oportunidade de retornar à encenação, já que nos últimos tempos ele tem se dedicado ao curso Técnico em Arte Dramática do Senac. A direção ficou aos cuidados de Felipe Trevilin, aluno de Scarpa e Araújo, e assistência de direção com Anelise Ferraz.

A intenção do grupo com o espetáculo é discutir a condição do trabalhador no país, explorado e submetido a condições sub-humanas e, ao mesmo tempo, experimentar nova concepção de encenação, propiciando aos integrantes um rico material artístico e intelectual como ferramenta de provocação e crítica social. Para a concretização do trabalho, os integrantes da companhia fizeram uma intensa pesquisa sobre o assunto, incluindo filmes, documentários, sites, livros e matérias jornalísticas.

Lodo foi um dos 20 projetos selecionados pelo edital Artes Integradas 2 do ProAC 2014 (Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo). No primeiro semestre deste ano aconteceram apresentações em Limeira, Rio Claro, Araraquara e Itanhaém, cidades que receberam também palestras, oficinas, exposição fotográfica e exibição de vídeos sobre trabalho análogo ao escravo ou degradante, com flagrantes feitos pelo Cerest (Centro Regional da Saúde do Trabalhador de Piracicaba).

DUAS DÉCADAS – A Cia Te-Ato comemora 20 anos de atividades em 2015. O propósito inicial de seus integrantes era montar espetáculos didáticos e interativos para empresas, com temas sobre segurança do trabalho, qualidade de vida e planejamento orçamentário familiar. Até que surgiu a comédia Uma Visita de Cerimônia, criada a convite do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. A peça permaneceu em cartaz por mais de um ano e percorreu vários bairros da cidade.

Depois disso vieram o infantil O Pequeno Reformador, produzido a pedido do Sesc Piracicaba, e a comédia Em Busca do Ponto G, para apresentação novamente no Salão de Humor, em 1998. Rebatizada de As Três Marias em Busca do Ponto G, a peça lotou vários teatros em Piracicaba e na região, e foi apresentada em São Paulo, por meio do projeto Itaú Cultural.

O espetáculo Lodo está entre os 10 selecionados para a mostra oficial do Fentepira, entre os 253 inscritos por vários grupos brasileiros. O Festival segue até 15 de novembro, sempre com entrada gratuita, e traz ainda debates com o doutor em história social Alexandre Mate, o ator, diretor e bailarino Aguinaldo de Souza e o ator e professor Valdir Rivaben, também curador do 10º Fentepira. A participação nos debates é aberta ao público e possibilita o aperfeiçoamento do olhar sobre o fazer teatral, a partir de perspectivas distintas de estudiosos no assunto.

O Fentepira é realizado desde 2006, por meio da Prefeitura do Município de Piracicaba e da Semac (Secretaria Municipal da Ação Cultural). Os parceiros desta edição são o Sesi, Sesc, Senac, Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), Colégio Piracicabano, Poiesis – Organização Social de Cultura, Ponto de Cultura Garapa, Apite! (Associação Piracicabana de Teatro), CoMCult (Conselho Municipal de Cultura), Associação Cultural e Teatral Guarantã, Jornal de Piracicaba, Revista Arraso, Secretaria Municipal de Educação e Rádio Educativa FM.

SERVIÇO – Espetáculo Lodo, no 10º Fentepira. Segunda-feira, 9, às 20h, no Armazém 14 do Engenho Central. Entrada gratuita. A distribuição de ingressos tem início uma hora antes do espetáculo. Classificação: livre. Duração: 60 minutos. Capacidade: 150 pessoas. Informações: (19) 3413-5212 e fentepira.com.br.

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